terça-feira, 27 de maio de 2008

Memórias quase perdidas

A minha avó materna morreu em Janeiro. Fiquei triste, claro. Mas ainda não estou bem. Acho que estou em negação ou assim. Desde que ela morreu já tive oportunidade de ir a casa dela, mas em vez disso fiquei na casa da vizinha. Não quero entrar em casa da minha avó. É a casa dela, se eu entrar lá sem ela lá estar é a confirmação de que ela nunca mais volta. Eu não quero isso. OK, é oficial, estou em negação. Não é bem negação, eu sei que a minha avó morreu, eu sei disso, fui ao velório, fui ao funeral... parece que a família só se junta para desgraças... Eu sei que ela não está cá nem nunca mais vai estar e que eu nunca mais a vou ver, mas não quero entrar em casa dela. E, se depender de mim, não vou.
Ontem à noite estava na cama a tentar dormir e lembrei-me das coisas que ela nos fazia (a mim e aos meus irmãos). Ela dava-nos tudo. Se queríamos um chupa, ela comprava; se queríamos ir ao McDonalds, ela levava-nos; se queríamos um brinquedo ou uma revista, ela dava-nos... Ela dava-nos tudo. Não interessa o que lhe custava, não interessa se os meus pais não queriam que ela nos desse demasiadas coisas, não interessava nada. Ela dava-nos tudo. A minha mãe era filha única, mas a minha avó teve quatro netos dela. Nós eramos os meninos dos olhos dela. Eu era a menina dos olhos dela. E agora ela foi-se embora e deixou-me aqui sozinha. Estou triste. Nunca lhe disse que gostava dela, nunca lhe disse que ela era a melhor pessoa do Universo, nunca lhe disse tantas coisas... Nós eramos tão maus para ela... Fazíamos coisas de miúdos, provavelmente é isto que todos dizem: "Eram miúdos, não faz mal. Os miúdos fazem coisas estúpidas, não quer dizer que não gostassem dela. Eram miúdos." Pois eramos, mas a idade não desculpa tudo. Eu sei perfeitamente que eu tinha idade suficiente para perceber que certas brincadeiras não se fazem e que era a nossa avó. Demos-lhe demasiados problemas. Ela sempre se preocupou connosco, sempre nos defendeu. Sempre. Mas quando ela pedia para eu tocar piano para ela ou quando ela nos dava miminhos pareceia que estávamos a passar um frete, a fazer-lhe um favor, só por sermos netos.
Estou triste. Estou triste e a chorar para cima do teclado (o que é decadente). A minha avó não gostava que nós chorassemos. Quando os meus pais se chateavam connosco ela ia sempre para o nosso lado. Quando estávamos tristes ela ajudava-nos sempre. Quando tinhamos más notas na escola ela dizia que o próximo teste seria melhor. Quando o Benfica ou o Sporting ganhavam ela telefonava a dar os parabéns aos meus irmãos. lol A minha avó era o máximo. Era a melhor. Mas eu não lhe disse isso. Nunca lhe disse que gostava dela, nunca lhe disse que ela era a melhor do Mundo, nunca lhe disse nada disso e estou arrependida. Agora nunca lhe vou poder dizer tudo o que lhe quero dizer. Nunca mais a vou ver. A minha avó protectora foi-se embora. Não me interessa que as pessoas acreditem no Céu ou no Inferno, eu não acredito. Não acredito em Deus, não acredito na ressureição, não acredito que a minha avó está a tomar conta de mim e dos meus irmãos e da minha mãe e de toda a gente que ela conhecia desde lá de cima. Não acredito. Deus foi inventado. Inventado por Homens que não queriam sofrer como eu estou a sofrer. Homens que não queriam acreditar que a vida é só isto e que depois vamos embora e nunca mais voltamos, não há mais nada. Homens que não quiseram pensar que estavam sozinhos quando algum amigo morria. Pois eu não acredito em Deus. Não acredito porque escolho não acreditar. É a escolha que mais me faz sofrer, mas é a minha escolha. Dói muito saber que a minha avó estava cá e passado um momento partiu para sempre, mas prefiro sofrer do que viver numa ilusão. Eu nunca mais vou ver a minha avó. E tenho muitas saudades dela.
Já que não consegui, ou não tive coragem, de lhe dizer isto tudo enquanto ela era viva, achei por bem que alguém registasse como era a minha avó Isabel, a melhor avó do mundo.

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